PEDIATRIA - ENURESE NOTURNA
Aproximadamente 15% das crianças molham a cama aos 5 anos de idade, tendo uma taxa de resolução espontânea de 15% ao ano, persistindo em 1% dos jovens com mais de 15 anos. Essa situação é mais comum em meninos, tendo forte fator hereditário. A chance de uma criança molhar a cama é de 77% se ambos os pais tiveram enurese, 43% se um dos pais teve enurese e 15% se nenhum deles teve.
Na maioria das vezes nenhum problema de saúde está presente, apenas a perda de urina. Porém, com o crescimento e socialização da criança, a enurese noturna pode ter um impacto negativo muito grande no desenvolvimento psicológico da criança. Isto leva a uma retração e dificuldade de fazer amigos.
A enurese noturna é a perda freqüente de urina durante o sono. Muitas teorias foram criadas para explicar sua causa. Entre as possíveis estão distúrbios do sono, retardo no amadurecimento do sistema nervoso, bexiga pequena e contrações involuntárias da bexiga à noite e alterações dos níveis de hormônio antidiurético.
Nós (urologistas) as classificamos em:
- enurese primária: quando a criança nunca controlou a perda de urina;
- enurese secundária: quando após um período de controle, a criança volta a perder urina.
Investigação
Na maioria dos pacientes, apenas uma história clínica bem feita e exame de urina são suficientes, além do passado urinário dos pais. Porém, nos casos de enurese secundária, outros exames podem ser necessários, como avaliação urodinâmica, ultrassonografia ou exames radiológicos. Apenas o urologista saberá, baseado nas informações obtidas, se há ou não necessidade de investigação mais aprofundada.
Tratamento
O tratamento tende a ser bem sucedido, porém a falta de interesse da criança e de seus pais diminui a taxa de sucesso. Antes de iniciar qualquer tipo de tratamento, a família deve estar ciente da necessidade de comprometimento e paciência. O tratamento pode ser demorado e, muitas vezes, após suspensão do tratamento, as perdas podem retornar. Por isso, a responsabilidade pelo sucesso é muito mais da família .
Modalidades:
Modificação do comportamento – Tem sucesso variáMvel, devendo ser considerado como primeira escolha. Inclui treinamento vesical, reforço de responsabilidade e terapia de condicionamento com alarme.
Terapia de condicionamento – Utiliza um alarme urinário, que possui um detector ativado pela urina. Assim, a criança acorda com o alarme e vai ao banheiro esvaziar a bexiga. Assim, o alarme acaba condicionando a criança a inibir a contração vesical.
Treinamento vesical – O objetivo é aumentar progressivamente o intervalo entre as micções. Quando utilizado em associação com o alarme apresenta taxas de sucesso apreciáveis.
Reforço de responsabilidade – Tem o objetivo de motivar a criança a assumir a responsabilidade pelas perdas e o crédito por manter-se seca. Necessita de uma criança motivada, pais pacientes e compreensíveis e, muitas vezes, terapia. Cada evento positivo, como intervalos maiores entre as perdas e noites secas, são celebrados e recompensados. É extremamente útil quando associado a programas multidisciplinares.
Tratamento medicamentoso – O tratamento medicamentoso pode utilizar a imipramina e a vasopressina.
A imipramina é um antidepressivo com efeitos anticolinérgicos, proporcionando a cura em até 50%, porém o retorno dos sintomas ocorre em até 60% dos pacientes quando o medicamento é suspenso. Existe o risco de toxicidade.
A vasopressina (DDAVP) é um medicamento que imita um hormônio, cujo efeito é diminuir a produção de urina. Assim, o remédio inibe a produção de urina à noite, diminuindo as perdas. O DDAVP tem como problemas o baixo índice de sucesso após a retirada da medicação e o risco de intoxicação por excesso de água.
Conclusão:
A enurese noturna não é uma doença e sim um sintoma, geralmente desaparecendo até a puberdade. Causa muito mais problemas emocionais para a criança e sua família do que para a saúde, merecendo atenção. O tratamento comportamental deve ser o inicial, ficando as medicações como segunda opção.